Durante
As noites são as piores partes. Durante o dia a mente vai
pra outros lugares, se ocupa com outras coisas, com outras pessoas. Mas durante
a noite não há escapatória, não dá pra fugir de ti mesmo, das próprias
memórias. Ao longo da noite os sentimentos vão aumentando, vão ganhando forma e
força, tornando a solidão algo quase sólido, concreto, que existe de verdade e
que pode machucar de verdade.
Por mais que esse processo nos faça mal, tendemos a lembrar
das coisas boas, dos momentos bons e felizes, mesmo que eles já não existissem
com tanta frequência há algum tempo. A parte consciente do cérebro consegue
fazer a distinção, consegue entender que de fato há males que vem para o bem e,
durante algum tempo, tudo parece que vai ficar bem. Mas, durante a noite, a
saudade vem com força, a saudade de coisas que foram, que não foram e,
principalmente, das que poderiam ter sido.
Alguns dos porquês me machucam, outros me confortam, mas a
maioria deles não me faz bem, porque no final das contas não faz muita
diferença. Ninguém presta muita atenção em como a chuva cai do céu, mas todo
mundo se importa com a meia molhada ou com a rua alagada. Buscar razões nos
motivos, buscar uma explicação razoável que faça com que o sofrimento seja
menor, não parece fazer mais tanto sentido quanto fazia antigamente. Assim como
a chuva, os motivos são indiferentes aos sentimentos. Eles só existem. E
pronto.
Eu sentia saudade quando não tinha, sentia medo de perder
enquanto tava tendo e agora, que realmente não tenho mais, fica a dor, a
sensação de eu fiz alguma coisa errada durante o processo. Não há muita dúvida
quanto a isso, de fato tomei atitudes erradas, decisões erradas, mas a grande
verdade é que o grande problema foi o medo; o medo paralisa, deixa as pessoas
sem reação. Não ter reação no meio da selva é mesma coisa que morrer, mas em
nenhum momento deixa de ser tão perigoso.
Embora tudo pareça ruim, tudo pareça triste, um estranho
alívio tomou conta logo depois. A simples existência desse alívio já torna tudo
bastante complicado, já que alívios desse tipo não deveriam existir em
situações como essa, mas não tem como negar, ele tá lá. E, de certa forma, ele
continua lá. O que acontece, então, é uma briga incessante entre o alívio e a
dor, entre a saudade e a aceitação. Em alguns momentos, a dor ganha e rasga
tudo que o alívio costurou; durante esses momentos, que tá acontecendo nesse
momento, a saudade toma conta, a falta física e emocional cria um precipício,
um vazio, basicamente um buraco negro, que suga tudo ao redor, não parecendo
deixar espaço para nada bom surgir ali. Nos outros momentos, quando o alívio
consegue ressurgir, quando a aceitação toma conta, as coisas parecem fazer mais
sentido, eu consigo olhar pro vazio sem querer pular. Porque é isso, o vazio
vai continuar lá, não importa o que eu faça. Durante esse tempo indeterminado,
eu preciso aprender a lidar com ele, só torcendo e esperando que ou ele desapareça
ou eu consiga seguir em frente apesar dele.
We move in
circles
Balanced
all the while
On a
gleaming razor's edge
A perfect
sphere
Collliding
with our fate
The story
ends where it began
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