O relógio quebrado já passa da meia noite, um cansaço estranho é sentido e a barba por fazer já começa a incomodar. Tanta coisa pra resolver assim que acordar, que até sente uma grande vontade de seguir dormindo. Os problemas se acumulam, assim como as mentiras. Parece que ele tem que enganar alguém para arranjar algum dinheiro para pagar os dois filmes que não viu, a multa do livro que não acabou de ler. Já passa da meia noite e ele segue sem sono, mas a certeza de que, se deitar a cabeça no travesseiro e apagar a luz, dorme.
As férias chegaram seguidas pelo fim do semestre. O primeiro de muitos dentro da faculdade. Ele achou que tudo seria mais fácil, que dava pra levar tranqüilo. Tinha a impressão de que era mais inteligente do que os outros e que por isso não precisava estudar. Foi como se o cara fraco resolvesse brigar com o fortão. O fraco colocou um molho de chaves entre os dedos, acertou o primeiro soco e abaixou a guarda. Três socos, de Deus sabe aonde, vieram e terminaram com a luta. O fraco até hoje procura o caminhão que o atropelou. Mas voltando, nada foi fácil, tão pouco tranqüilo. Podia até ser mais inteligente do que alguns, mas a faculdade não é lugar dos que sabem e sim daqueles que se esforçam. No guts, no glory, é o que dizem por aí.
Aí ele se apegou na pessoa errada. Ou talvez na pessoa errada naquele momento, ou quem sabe ele quem estragou tudo, não tem como saber agora. Passou um tempo até que ele conseguisse acordar pro mundo real de novo e provavelmente já era tarde demais. O barco já tinha partido sem ele e nadar não era uma opção válida. Provavelmente não haviam outras opções válidas naquele momento, só ele que não tinha percebido isso. Ainda.
E lá vem outra pessoa errada. E mais uma. Ele começa a perder a esperança no mundo, começa a achar que nada vai dar certo no fim, como sempre mentiram pra ele que aconteceria. Mas, quando para pra pensar, ele percebe que boa parte do erro estava nele e não na outra pessoa. Ele só procurava uma desculpa para não se sentir tão culpado por não conseguir iniciar um relacionamento, afinal de contas, insegurança demais e timidez demais nunca ajudam, principalmente nunca mente traumatizada com toda essa coisa de amor, principalmente o não correspondido. Só que isso não é necessariamente uma explicação. O problema pode estar dentro dele. Ter um relacionamento, gostar de alguém, significa a troca de segredos, de intimidades. Compartilhar segredos implica deixar a máscara cair, revelar para uma pessoa o que ele sempre quis esconder do resto do mundo. Provavelmente ele não tá pronto pra encarar o mundo do lado de fora da prisão que ele mesmo criou, ou vai ver ele simplesmente não quer deixar a prisão, afinal conforto não lhe falta.
E como ele vai criticar um Deus no qual ele não acredita? Pra quem acredita que há algo acima de nossas cabeças, fica fácil pedir ajuda quando as coisas não vão boas e agradecer quando tudo dá certo. Só que ele não crê nisso. Pra ele, a explicação dos problemas terrenos tá na própria Terra, e não acima dela. Então, a quem ele deve recorrer quando algo de ruim ocorre? Ele tinha planos pra uma longa vida, tendo netos correndo no pátio de sua casa, sem preocupações. Agora, tudo pode ter sido encurtado. Uma vida útil até os 30, talvez 35 anos. Parece coisa dos neanderthais, coisa do tempo das cavernas. Resta uma questão: Será que ele vai se tornar destrutivo, terminando de vez com sua vida antes mesmo dos 25 ou será que ele espera, pacientemente, até o momento no qual ele vai esquecer até mesmo o seu rosto, não reconhecendo sua própria face ao se encarar no espelho?
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só desliga, só isso.
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