Um homem com o joelho machucado não quer guerra com ninguém

Era um dia comum, mais um daqueles dias em que tinha tudo pra não entrar na lista de dias memoráveis na vida. Pronto para ser esquecido daqui alguns meses. E nada nesse dia dava a menor impressão de que algo diferente aconteceria ao final dele. Mas a vida, ah a vida, ela adora nos pregar peças e mostrar que, quando a gente acha que sabe muito dela, a gente na verdade não sabe nada. 
Estava lá eu, deitado em casa, procrastinando a um nível digno de se sentir vergonha por estar deixando tudo de lado de um jeito tão grande. É incrível a quantidade de jogos que o Facebook te oferece, né? Por mais que eles sejam essencialmente iguais, o cérebro acha isso tudo demais. As cores, os barulhos, os movimentos, as recompensas. O cérebro vê isso como a coisa mais divertida do mundo e manda um monte de sinais pra gente seguir fazendo isso por um longo tempo, como se não houvesse nada mais para ser feito. Daí, depois de horas movendo frutas de lugar pra salvar uma bruxa, tu percebe que perdeu metade do dia fazendo isso e só nesse momento o cérebro lembra de todas as coisas que tu deixou de fazer. Depois da procrastinação, vem a culpa, a vontade de querer fazer algo pra pelo menos aparentar que eu sou útil pra alguma coisa. E qual foi o jeito encontrado para resolver esse problema? Jogar futebol.
Desde pequeno eu tenho uma certa predisposição para os esportes. Sou relativamente veloz, alto e magro, pronto pra sair por aí correndo atrás de uma bola. Mas essa capacidade física inata nunca se transformou em habilidade, ou na habilidade que era esperado que eu tivesse. Mesmo assim, eu insistia. Afinal de contas, precisava ser ativo, precisava praticar alguma atividade física pra não deixar a asma ganhar a briga contra meus pulmões. Fui lá eu, com uma vestimenta que indica que eu era melhor do que de fato sou, pronto para praticar o tal do esporte bretão.
Durante algum tempo, tudo correu muito bem, do jeito certo que deveria ser. Não é como se estivesse fazendo gol, mas também meu time não estava perdendo e isso já significava bastante coisa. O dia tava lá pronto pra se tornar mais um dia comum, como qualquer outro. Mas a vida, essa sim, é uma caixinha de surpresas, e faz uma questão imensa de mostrar que a gente tá sempre errado.
Era um lance normal, sem muita possibilidade de resultar em um gol ou em uma jogava produtiva. Em uma hora, eu estava recebendo um passe e pensando no que eu faria com a bola, que se aproximava cada vez mais rápido. No outro instante, a marcação chegou e sinto uma pontada em meu joelho esquerdo. Olho para baixo e percebo que há algo de errado com a minha perna. Uma fração de segundo se passa e a sensação continua. Quanto mais eu olho, mais eu percebo que há algo de errado. Meu cérebro começa a enviar sinais e eu demoro um longo tempo para perceber o que tinha acontecido. Sem ter muito controle das minhas ações, levo a mão ao joelho e sinto que algo ali não estava do jeito que deveria estar. Em pânico, meu cérebro toma o controle das ações e manda para as cordas vocais impulsos que, em uma situação normal, eu não mandaria. De repente, vejo saindo sons da minha boca, sons que pareciam estranhos no princípio, mas à medida que eu ia escutando o que falava, percebia que faziam total sentido. “Quebrou minha perna, me ajuda aqui, minha perna quebrou!” 
Minha perna tinha quebrado? Não. Nem perto, na verdade. Mas não sei se o cérebro dá muita bola para diagnósticos médicos quando uma parte do corpo está visivelmente fora do lugar. Recebi a pancada e a inércia disse que a perna teria que se movimentar na direção da pancada, levando em conta a força aplicada nela. Porém, o joelho achou que era melhor ficar no lugar onde estava, que não havia sentido em deixar a inércia tomar conta das contas. Quando uma força imparável encontra um objeto imóvel eles acabam se anulando, porque nenhum dos dois consegue mudar o estado do outro. Mas quando um joelho mais forte do que o meu bateu no meu, foi só um objeto imparável batendo em um monte de osso que não tava pronto pra aquela força toda. E o resultado não tinha como ser outro. A perna se mexeu, mas o joelho não. Minha patela, aquela bolinha na qual a gente adora ficar mexendo quando tá entediado, foi parar do lado esquerdo da perna, num lugar absurdamente estranho para uma patela estar.
Passado o susto, o que chegou foi o pavor. Mas um pavor que eu nunca havia sentido na vida. O cérebro não fazia a menor ideia de como lidar com esse tipo de situação, então ele resolveu desligar ou dar uma volta, e só voltar depois que a situação estivesse resolvida. Eu olhava para o joelho, que estava absolutamente travado, e gritava sons que deixariam um neandertal orgulhoso por ver que a língua dele tinha chegado tão longe na história. A pior parte nem era a dor. Só doía quando eu respirava ou me mexia, e dava pra segurar a respiração e não se mexer muito. A pior parte é ver uma parte do corpo tão fora do lugar, tão deslocada de onde deveria estar. As pessoas que estavam comigo na quadra contam que eu fiquei pálido, que eu gritava que ia desmaiar, que queria que quebrassem minha perna pra fazer a dor passar, esse tipo de coisa que faz total sentido. Eu disse que o cérebro tinha ido dar uma volta. 
Queria ter memórias mais inteiras daquele momento, para contar pros filhos e netos quando eles resolverem sair praticando esportes sem a mínima preparação, mas como nem o cérebro tava por lá, acredito que era bastante complicado para guardar alguma recordação. Eu começo a lembrar das coisas quando, em um momento bastante feliz na minha vida recente, o próprio joelho perdeu que algo estava bem errado e resolveu voltar para o lugar. Eu nunca, mas nunca mesmo, senti tanto alívio na minha vida. Nem quando vi que o conselho escolar tinha resolvido me passar em Química ou quando tinha passado no Vestibular ou quando recebi o sim quando perguntei “quer namorar comigo?”. O alívio e a felicidade invadiram meu corpo em ondas, em espasmos, numa sensação bastante parecida com um orgasmo, só que com um final muito mais divertido. 
No fim das contas, desde a pancada até o joelho voltar pro lugar normal, tudo não deve ter durado mais do que 5 minutos. Mas, naquele momento, no auge da agonia, o tempo pareceu não passar. Tive a sincera e honesta impressão de que havia se passado duas horas, transcorrendo uns 10 minutos a cada olhada que eu dava para o joelho. É tipo aquela coisa do Interstellar, quando eles estavam muito perto do buraco de minhoca o tempo passava mais rápido, só que o oposto. Cada vez que minha visão chegava perto do joelho, o tempo ficava mais e mais devagar, chegando a parar em certos momentos mais difíceis. Olha as horas em que a relatividade do tempo decide se mostrar, sabe?




Por algum desses motivos que só a vida explica resolvi voltar a escrever. Qual a frequência com a qual vou postar? Não faço ideia. Mas mudei o layout do blog, então acho que agora a coisa tem uma forte chance de dar uma engrenada.
(A ideia é parar de postar só os textos deprês, mas nunca dá pra excluir nada.)
e sim, esse texto parece que termina do nada. até porque, veja só, ele termina. mas a vida apronta dessas.

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