Maybe it’s over, but over it’s not a word that you know


Saí de casa com a certeza de que iria dizer a ela. Mas mesmo assim, apesar de ter tudo planejado, eu não queria. Não queria falar o que era necessário falar. Não queria contar o que ela não queria ouvir. Na noite anterior, enquanto eu pensava nas palavras que ia dizer a ela, deitado no escuro, tudo parecia mais fácil, tudo era mais simples. Pensava nas coisas que diria e pensava, no instante seguinte, em coisas que ela iria responder, e tudo se encaixava num intrincado jogo dentro da minha cabeça. E me perdia nesse jogo, me perdia na batida do compassado ritmo do meu coração. Até aquela noite, eu era capaz de dizer que ela não estava sozinha naquele amor. Mas naquela noite chuvosa, todas as minhas certezas foram embora. Parece que a chuva lavou tudo que eu tinha por garantido, e mexeu comigo de uma maneira inexplicável.
Eu ainda pensava nas coisas pelas quais tínhamos passado, que ainda pensava nas coisas que ela fazia, no jeito dela, que ficava completamente absorto nas memórias, torcendo para que aquilo durasse pra sempre. Mas eu sabia, lá no fundo, que tudo já tinha acabado. Mas era mais simples acreditar no contrário, afinal de contas ‘acabou’ não é palavra que tu conhece, sabe.
E sempre tem o espaço pro clichê, que sempre aparece no momento errado, mas é óbvio que isso me machuca. Não sei se machuca mais em mim do que em ti, não tenho como saber disso, não tenho como ter noção disso. Mas sei que machuca. Tu pode dizer todas as coisas que nunca achou que fosse me dizer, todas aquelas palavras que tu esperava que eu nunca fosse merecer, mas pode dizer a vontade, as coisas já acabaram mesmo.
Eu não queria ter que dizer isso pra ela, não queria precisar dizer isso pra ela. Mas, noite após noite, sei que um pensa no outro. Sei que um chama o nome do outro. Por outro lado, também sei que isso é em vão. Talvez tudo já tenha acabado, mas acabar não deve ser uma daquelas palavras que você conhece.
Talvez eu devesse falar isso pra ela, mas essa dúvida tem dois lados, claro. Fico dividido entre contar e não contar que, na verdade, estou desabando e que quebrei todas minhas regras, desde o começo, pra fazer com que isso desse certo. Gosto muito das minhas regras, do jeito que as coisas funcionam, e não é qualquer uma que me faz abrir mão disso. Queria ser capaz de dizer que apesar de tudo, tu não tá sozinha. Mas até nisso falho.
Existe uma possibilidade, na verdade uma certeza, de que vou me machucar ao te ver tentando passar por isso tudo sozinha, mas aí vou saber que tu vai querer que eu me machuque de qualquer forma, então não faz diferença, porque apesar de tu querer, já não sou presença na tua vida, e tu não é presença na minha.
Isso é só um texto, e essas são as palavras. Mas essa podia ser uma música. A música. E as palavras continuariam as mesmas.
E de fato, acabou. Eu sei disso, tu sabe disso tão bem quanto eu sei. Mas talvez ‘acabou’ não seja uma palavra que tu conheça.

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