Suddenly you were gone
De uns tempos pra cá, sempre achei que toda história de amor tinha que terminar mal. Que todo e qualquer romance tava fadado ao fracasso. A gente monta nossas ideias de acordo com nossas experiências passadas, e minhas experiências todas tinham sido terríveis e tenebrosas. Minha vida inteira foi gostar de gurias que não gostam de mim, então quando o contrário acontece, quando alguém gosta de mim, eu nunca soube lidar com isso tudo. Nunca entendi o que leva uma pessoa a sentir qualquer forma de afeto, qualquer tipo de carinho por mim, porque eu nunca queria que alguém sentisse qualquer coisa por mim. O nada me bastava, a total e completa ausência de sentimentos era suficiente pra mim.
Me escondi atrás de máscaras e rótulos falsos, procurando acreditar que, um dia, isso seria o suficiente pra mim. Que um dia eu ia acordar e não ia mais ser aquela 'coisa' vazia que sempre fui. Na verdade, já nem sei se mais. Não sei mais quem sou, não sei o que sou. Não sei se toda essa coisa de não sentir nada por ninguém é real ou foi só mais uma coisa que eu inventei pra me proteger de mim mesmo. Porque não é dos outros que eu preciso me proteger, é de mim mesmo. Eu sou muito pior do que qualquer outra pessoa pode ser. Eu vivo me sabotando, me colocando pra baixo, por não querer saber até onde consigo ir. Se tu for parar pra pensar e ler os textos que eu já escrevi aqui, vai perceber que a maioria é pra alguém em específico. No fundo, tudo que eu escrevo acaba sendo pra mim. Acaba sendo pra projeção que eu faço da pessoa específica, projeção que eu faço quando me apaixono. E eu tento acreditar que não me apaixono fácil, que não gosto fácil das pessoas, mas eu sou um abobado nesse sentido. Por pensar que nenhuma água vai sair dessa pedra, me surpreendo com a menor gota, e tudo acaba virando uma cachoeira que eu não consigo lidar com. É só pensar numa represa: por mais que tu tente tapar um lado, a pressão da água vai agir em outro lugar, um lugar que ninguém espera. E daí rompe a porra toda. E não tem como controlar a água.
Há 6 anos, mais ou menos, perdi uma parte de mim. Deixei de ser aquele guri sonhador, otimista, que sempre via o lado bom das pessoas. Não sei o que eu me tornei, não sei me tornei alguma coisa, na real, mas sei que mudei. Mas no fundo, quanto mais a gente muda, mais a gente continua a mesma coisa. Quanto mais eu tento mais afastar do mundo, mais o mundo se aproxima de mim. E cada vez que eu fujo eu me aproximo mais, já dizia a música. E eu acho que cheguei num ponto em que não tenho mais pra onde fugir. Não rola mais espaço pra afastar alguém. Fico pensando e repensando as decisões que tomei e dá pra concluir que a maioria foi errada. Nunca soube escolher bem na vida, e me geralmente me arrependo de tomar a decisão no instante seguinte após tomá-la. E como a vida feita de ciclos, cá estou eu me arrependendo de novo. As situações de repetem. Usei a mesma desculpa uma vez, usei de novo. Não sei se esse sentimento ruim que vem de dentro é culpa ou se é remorso. No fundo, os dois são exatamente a mesma coisa. Lá no fundo os dois doem da mesma maneira. É tipo queimadura com fogo e com gelo. Se tu fechar os olhos, o teu corpo vai sentir exatamente a mesma coisa. A mesma dor, a mesma ardência. Tudo é igual.
Talvez tudo tenha começado com o pássaro negro, a primeira das pessoas que eu afastei quando achei que ela tinha surtado com toda essa minha pseudo carga psicológica. Vendo tudo isso de longe, cometi o mesmo erro que venho cometendo há muito tempo. Eu é que surtei. Eu que não soube lidar com tudo isso. Desejei que o pássaro negro voasse pra longe, pra que não se quebrasse de novo, mas isso diz muito sobre mim. Eu é que não queria me quebrar, eu que queria voar pra longe. Mas eu não tinha essa opção. Tu pode fugir de todo mundo, mas não consegue fugir de si mesmo. Depois as histórias só foram se repetindo, só foi tudo virando um eterno dia da marmota, com pessoas diferentes, com sentimentos parecidos e fugas idênticas. Sempre disse que 'ninguém conseguiu lidar com todos esses problemas que eu tenho' e por muito tempo isso foi uma desculpa pra terminar com relacionamentos que nem existiam. Mas a real é que eu nunca consegui lidar com todos esses problemas que eu tenho. Sempre sufoquei tudo, sempre coloquei tudo pra baixo do tapete, achando que assim eu ia ser feliz e que tudo ia virar passado. A verdade é que eu nunca superei. E nem acho que um dia vá. E a essa altura do campeonato, acho que nem seja a coisa certa a se fazer. Esse tipo de coisa não é algo pra esquecer, não algo pra deixar pra lá como se não tivesse acontecido. É algo pra encarar todos os dias, pra enfrentar todos os dias, pra te relembrar que não tem como todo mundo ser tão ruim assim. Que mesmo sendo o maior dos pessimistas, que mesmo esperando o pior do mundo, tu nunca vai achar alguém que seja tão ruim assim. Se dizem que cada um só tem uma alma gêmea, que o amor de verdade só acontece uma vez na vida, é justo também dizer que uma decepção dessas só acontece uma vez na vida, que toda essa dor não vai acontecer de novo.
O ciclo de sofrimento continua, não tem como fugir dele, porque as memórias continuam, as memórias tão sempre lá. A vida não é um filme ou uma série onde tu consegue apagar uma parte específica das lembranças de alguém. A moral da coisa é se apegar na esperança de que um dia tudo isso vai passar, de que a felicidade vai vir pra todo mundo, inclusive pra mim.
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