E o tempo tique taca devagar
Era mais um dia chuvoso, um daqueles que tirava todas as pessoas da rua. Os transeuntes brigavam por espaço com os desabrigados nas marquises e um mar de guarda chuva era visto da janela do sexto andar. Era lá que ele se encontrava. Era de lá que ele observava o mundo, era de lá que ele via tudo acontecer. Ele não lembrava da última vez que saíra de casa, mas sabia que fazia muito tempo desde a visita ao apartamento dela. A tecnologia evoluiu demais, a gente pode pedir qualquer coisa por tele entrega, era o pensamento dele. No começo, ele lembrava, foi tudo muito complicado. Os vizinhos estranhavam a ausência dele, o zelador não queria trazer as correspondências até a porta dele, os colegas de trabalho ligavam diariamente em busca de notícias e buscando uma resposta pro sumiço repentino, o cachorro estranhou a mudança de hábito do dono. Mas com o tempo, tudo se ajeitou, é assim que o tempo funciona, é pra isso que o tempo serve. Os vizinhos se acostumaram com a ausência dele, o zelador passou a entregar as correspondências na porta do apartamento, o trabalho já não existia mais e os colegas não existiam mais, e o cachorro foi para a adoção. Perder pessoas, essa é a rotina da vida dele.
Muitos começaram a se perguntar sobre a ausência dele. Poucos foram até a casa dele perguntar. Nos meses seguintes, nenhum voltou duas vezes. Ninguém se importava tanto assim com ele. Ele não era importante na vida de ninguém, ele não fazia falta na vida de ninguém. Mas ela fazia. Ela era. E essa distância entre os dois, esse vazio que foi criado pelas mais terríveis circunstâncias, podia ser a resposta que as pessoas procuravam da ausência dele. Ele não se sentia digno de continuar aqui, de continuar convivendo com as pessoas, de sair na rua e ver o mundo, enquanto ela não podia mais. Faltou coragem a ele para tentar outras atitudes, atitudes mais drásticas, então ele se resignou a existir da menor maneira possível, ocupando o menor espaço possível, vivendo sem interferir na vida de ninguém, sem fazer parte da vida de ninguém.
E aos poucos, dia após dia, ele foi se distanciando do mundo, procurando formas de esquecer a falta que ela fazia na sua vida, buscando jeitos de preencher o vazio deixado por ela. E não importa o que ele fazia, não importa a distração que ele arranjava, ela continuava lá. Seja uma pessoa caminhando na rua que vestia uma blusa parecida com a dela, seja com um sorriso que ele via de lampejo na revista, seja durante a noite, nos sonhos, enquanto ele fechava os olhos pra esquecer do mundo. Depois de um tempo, ele desistiu de tentar esquecer. Adotou como hábito, inclusive, escrever sobre os momentos em que ele via ela, aproveitando pra relembrar dos momentos que tiveram juntos. A primeira vez em que se conheceram, o primeiro beijo, a primeira ida ao cinema, o começo da relação, a primeira briga, o primeiro sexo de reconciliação. E isso aplacava a dor, fazia as coisas ficarem mais suportáveis, tornava o mundo um lugar menos pior.
Após alguns meses do começo da solidão imposta pela vida à ele, ele percebeu que não lembrava mais da voz dela. E concluiu, com dor, que não lembrava mais do cheiro dela, do toque dela, que as memórias sobre ela estavam cada vez mais turvas, como se cérebro estivesse focado em deixar pra trás essa parte da vida. Mas ele ainda tinha os escritos, e isso ajudava a manter ela viva dentro dele e, pra ele, isso era o suficiente. Ele tinha a certeza de que o mundo não ia esquecer dela nunca, então ele nunca se preocupou em divulgar as palavras que escrevia sobre ela. E as memórias permaneciam, E quando tudo parecia perdido, nos piores momentos, ele lembrava da música que cantou pra ela, enquanto os dois choravam de tristeza, quase como que se pressentindo a dor que viria. E isso acalmava ele, e ele achava que, em algum lugar, acalmava ela também.
Muitos começaram a se perguntar sobre a ausência dele. Poucos foram até a casa dele perguntar. Nos meses seguintes, nenhum voltou duas vezes. Ninguém se importava tanto assim com ele. Ele não era importante na vida de ninguém, ele não fazia falta na vida de ninguém. Mas ela fazia. Ela era. E essa distância entre os dois, esse vazio que foi criado pelas mais terríveis circunstâncias, podia ser a resposta que as pessoas procuravam da ausência dele. Ele não se sentia digno de continuar aqui, de continuar convivendo com as pessoas, de sair na rua e ver o mundo, enquanto ela não podia mais. Faltou coragem a ele para tentar outras atitudes, atitudes mais drásticas, então ele se resignou a existir da menor maneira possível, ocupando o menor espaço possível, vivendo sem interferir na vida de ninguém, sem fazer parte da vida de ninguém.
E aos poucos, dia após dia, ele foi se distanciando do mundo, procurando formas de esquecer a falta que ela fazia na sua vida, buscando jeitos de preencher o vazio deixado por ela. E não importa o que ele fazia, não importa a distração que ele arranjava, ela continuava lá. Seja uma pessoa caminhando na rua que vestia uma blusa parecida com a dela, seja com um sorriso que ele via de lampejo na revista, seja durante a noite, nos sonhos, enquanto ele fechava os olhos pra esquecer do mundo. Depois de um tempo, ele desistiu de tentar esquecer. Adotou como hábito, inclusive, escrever sobre os momentos em que ele via ela, aproveitando pra relembrar dos momentos que tiveram juntos. A primeira vez em que se conheceram, o primeiro beijo, a primeira ida ao cinema, o começo da relação, a primeira briga, o primeiro sexo de reconciliação. E isso aplacava a dor, fazia as coisas ficarem mais suportáveis, tornava o mundo um lugar menos pior.
Após alguns meses do começo da solidão imposta pela vida à ele, ele percebeu que não lembrava mais da voz dela. E concluiu, com dor, que não lembrava mais do cheiro dela, do toque dela, que as memórias sobre ela estavam cada vez mais turvas, como se cérebro estivesse focado em deixar pra trás essa parte da vida. Mas ele ainda tinha os escritos, e isso ajudava a manter ela viva dentro dele e, pra ele, isso era o suficiente. Ele tinha a certeza de que o mundo não ia esquecer dela nunca, então ele nunca se preocupou em divulgar as palavras que escrevia sobre ela. E as memórias permaneciam, E quando tudo parecia perdido, nos piores momentos, ele lembrava da música que cantou pra ela, enquanto os dois choravam de tristeza, quase como que se pressentindo a dor que viria. E isso acalmava ele, e ele achava que, em algum lugar, acalmava ela também.
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