Mas eu não fico

Comecei a lavar a louça durante as madrugadas. Lavar a louça sempre me ajudou a não pensar, sempre foi algo que eu fazia pra me distrair. E, nos últimos tempos, pensar é algo que tem acontecido demais.
Fico pensando em diversas possibilidades, como se meu cérebro fosse meu maior inimigo. E não basta pensar em uma possibilidade até o fim, dissecando diálogos inventados; outra possibilidade acaba surgindo logo em seguida, como se anterior não tivesse acontecido. No começo, eu ate conseguia perceber que a abstração tava chegando e mandava minha mente pra outro lugar. Mas aí o tempo passou e, em um processo totalmente auto-destrutivo, eu comecei a incentivar essa possibilidades. Acho que é um desejo de já estar preparado para o pior, de não ser surpreendido por nada. Só que isso faz mal, de várias formas. E eu alimento algumas dessas formas.
Mas lavar louça é um processo tranquilizante. Eu não preciso pensar em outras pessoas enquanto coloco detergente na esponja e abro a torneira. Eu não preciso inventar respostas dentro de diálogos inexistentes enquanto passo a esponja nos pratos, copos e talheres, nem quando a espuma aparece. Não preciso segurar as lágrimas, não preciso sufocar a tristeza que toma conta enquanto enxáguo a espuma e vejo os pratos limpos. Lavar a louça é bom porque funciona pra isso tudo e eu não preciso pensar.
E enquanto eu coloco a louça no escorredor, eu não preciso lembrar dos sonhos, não preciso ficar interpretando o que cada coisa que o meu inconsciente diz. Enquanto eu limpo a pia, tirando o excesso de água que fica embaixo do escorredor, eu não pensando em tudo que poderia ter sido e não foi. Enquanto eu tiro o resto de comida de dentro da pia e coloco no lixo, eu não lembro de toda a culpa.
O problema de lavar a louça na madrugada é que uma hora os talheres ficam limpos, os copos ficam limpos, os pratos e as panelas ficam limpos, mas eu não fico.

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