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Durante

As noites são as piores partes. Durante o dia a mente vai pra outros lugares, se ocupa com outras coisas, com outras pessoas. Mas durante a noite não há escapatória, não dá pra fugir de ti mesmo, das próprias memórias. Ao longo da noite os sentimentos vão aumentando, vão ganhando forma e força, tornando a solidão algo quase sólido, concreto, que existe de verdade e que pode machucar de verdade. Por mais que esse processo nos faça mal, tendemos a lembrar das coisas boas, dos momentos bons e felizes, mesmo que eles já não existissem com tanta frequência há algum tempo. A parte consciente do cérebro consegue fazer a distinção, consegue entender que de fato há males que vem para o bem e, durante algum tempo, tudo parece que vai ficar bem. Mas, durante a noite, a saudade vem com força, a saudade de coisas que foram, que não foram e, principalmente, das que poderiam ter sido. Alguns dos porquês me machucam, outros me confortam, mas a maioria deles não me faz bem, porque no final da...

Mas eu não fico

Comecei a lavar a louça durante as madrugadas. Lavar a louça sempre me ajudou a não pensar, sempre foi algo que eu fazia pra me distrair. E, nos últimos tempos, pensar é algo que tem acontecido demais. Fico pensando em diversas possibilidades, como se meu cérebro fosse meu maior inimigo. E não basta pensar em uma possibilidade até o fim, dissecando diálogos inventados; outra possibilidade acaba surgindo logo em seguida, como se anterior não tivesse acontecido. No começo, eu ate conseguia perceber que a abstração tava chegando e mandava minha mente pra outro lugar. Mas aí o tempo passou e, em um processo totalmente auto-destrutivo, eu comecei a incentivar essa possibilidades. Acho que é um desejo de já estar preparado para o pior, de não ser surpreendido por nada. Só que isso faz mal, de várias formas. E eu alimento algumas dessas formas. Mas lavar louça é um processo tranquilizante. Eu não preciso pensar em outras pessoas enquanto coloco detergente na esponja e abro a torneira. Eu nã...

A pior parte é a ausência

Não sei e provavelmente nunca soube lidar com meus sentimentos. Durante muito tempo, fiquei fugindo disso, tentando evitar a sensação ruim que o vazio trás. E tentei de vários jeitos, um mais nocivo do que o outro. Mas não dá pra fugir de tudo, não dá pra se enganar pra sempre. Tô olhando pro vazio e percebendo que o vazio tá olhando de volta de mim. E o abismo me chama, o abismo me quer, e eu não sei até que ponto consigo fugir do abismo. Sabe aqueles momentos em que tu não tem plena certeza de que tomou a decisão certa, aquelas horas em que tu faz uma escolha mas vai ser assombrado por ela pelo resto da vida? Tem uma teoria que diz que existem três ou quatro decisões como essa durante toda a vida, decisões que mudam totalmente o futuro da pessoa,e nossa, como elas são pesadas. " The hardest part of letting go is saying goodbye " é uma daquelas frases muito bonitinhas e que todo mundo toma como verdade, mas a realidade não podia tá mais distante. A pior parte disso tudo é ...

Um homem com o joelho machucado não quer guerra com ninguém

Era um dia comum, mais um daqueles dias em que tinha tudo pra não entrar na lista de dias memoráveis na vida. Pronto para ser esquecido daqui alguns meses. E nada nesse dia dava a menor impressão de que algo diferente aconteceria ao final dele. Mas a vida, ah a vida, ela adora nos pregar peças e mostrar que, quando a gente acha que sabe muito dela, a gente na verdade não sabe nada.  Estava lá eu, deitado em casa, procrastinando a um nível digno de se sentir vergonha por estar deixando tudo de lado de um jeito tão grande. É incrível a quantidade de jogos que o Facebook te oferece, né? Por mais que eles sejam essencialmente iguais, o cérebro acha isso tudo demais. As cores, os barulhos, os movimentos, as recompensas. O cérebro vê isso como a coisa mais divertida do mundo e manda um monte de sinais pra gente seguir fazendo isso por um longo tempo, como se não houvesse nada mais para ser feito. Daí, depois de horas movendo frutas de lugar pra salvar uma bruxa, tu percebe que perdeu me...

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Fico pensando no que vai tá minha vida daqui 10 anos. Ou 20, quem sabe até mesmo 30. E não consigo pensar em coisas muito objetivas. Formado, quem sabe fazendo alguma outra graduação, quem sabe errando no mestrado, quem sabe casado, quem sabe com filhos correndo pela casa, que posso ter ou não. É muita incerteza, é muita possibilidade que podem não acontecer. Acho mais fácil fazer o contrário, me imaginar daqui 10 anos analisando minha vida hoje, as escolhas que eu faço, as decisões que tomo, em como tudo isso vai reverberar no futuro. Comecei a perder pessoas. Sabe, quando as pessoas que tavam na tua vida em um momento não tão em outro e tu demora um tempo pra sentir a falta que elas fazem. E geralmente não tem como trazer elas de volta, a amizade talvez já não seja a mesma, a relação que existia já não é mais tão forte quanto era antes, a vontade de tá perto quase não é suficiente pra fazer alguma diferença. Já não é mais uma simples questão de querer, o desejo em si não é o bastan...

But your blade might be too sharp

De uns tempos pra cá, busquei acreditar que eu não sentia nada por ninguém, que a própria existência das pessoas não afetava em nada o meu dia. E na maior parte dos casos, isso até é verdade, não sou dos mais sentimentais e não demonstro afeto por muita gente mesmo. O problema é que, volta e meia, gosto de alguém. E tudo aquilo que não sinto pelo resto do mundo é canalizado pra esse alguém e eu me torno uma coisa que não gosto. Por gostar de alguém, por gostar tanto assim de alguém, eu me torno vulnerável, absolutamente aberto e desprotegido pra tudo que possa acontecer. E não sei lidar com isso, de jeito nenhum. Relaciono o ato de gostar de alguém com coisas ruins porque  é assim que vejo as coisas, é desse jeito que a vida me fez crer. Talvez por gostar das pessoas erradas, talvez por gostar do jeito errado, virei uma pessoa traumatizada que tem medo de gostar de alguém, exatamente por sempre sofrer. Não acho que gostar de alguém seja algo que envolva sofrimento, não deveria en...

E o tempo tique taca devagar

Era mais um dia chuvoso, um daqueles que tirava todas as pessoas da rua. Os transeuntes brigavam por espaço com os desabrigados nas marquises e um mar de guarda chuva era visto da janela do sexto andar. Era lá que ele se encontrava. Era de lá que ele observava o mundo, era de lá que ele via tudo acontecer. Ele não lembrava da última vez que saíra de casa, mas sabia que fazia muito tempo desde a visita ao apartamento dela. A tecnologia evoluiu demais, a gente pode pedir qualquer coisa por tele entrega, era o pensamento dele. No começo, ele lembrava, foi tudo muito complicado. Os vizinhos estranhavam a ausência dele, o zelador não queria trazer as correspondências até a porta dele, os colegas de trabalho ligavam diariamente em busca de notícias e buscando uma resposta pro sumiço repentino, o cachorro estranhou a mudança de hábito do dono. Mas com o tempo, tudo se ajeitou, é assim que o tempo funciona, é pra isso que o tempo serve. Os vizinhos se acostumaram com a ausência dele, o zelador...